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A atual edição da Revista Espresso, especializada em café, traz mais um artigo que escrevi. Dessa vez, falo sobre um pouco da cultura do café aqui na Austrália, a sorte deles poderem importarem grãos verdes e torrarem em solo australiano (coisa que a legislação do Brasil não permite), muitas vezes no próprio salão e predileção dos aussies pelas suas próprias criações: o Flat White e o Long Black.




Além disso, a edição está recheada de matérias interessantíssimas que valem a leitura. :)


Bons Cafés!




Na Terra do Canguru por Michel Auki




Alguns amigos dizem que se mede a qualidade de vida de um país pela quantidade e tipos de cafés que ele oferece. Se é verdade eu não sei, mas, se for, a Austrália faz jus ao segundo lugar no índice de desenvolvimento humano da ONU, perdendo só para, veja bem, outra fanática por café, a Noruega.

Quando cheguei na Austrália, há pouco mais de 1 ano, esperava uma forte cultura do chá, por este ser um país colonizado por ingleses e estar muito perto da Ásia. Mas me surpreendi com a paixão pelo café e pela quantidade de estabelecimentos especializados na bebida por essas bandas.

Ao lado do Vegemite (uma pasta fermentada à base de levedura de cerveja, símbolo da Austrália), café é algo que não pode faltar em nenhuma refeição. E mais: australiano adora café com leite. Nos grandes centros urbanos como Sydney e Melbourne, Espresso e Macchiato são apreciados no dia a dia, mas nada se compara ao sucesso de criações regionais como o Flat White (disparadamente o preferido) e o Long Black.

O Flat White é o leite perfeitamente vaporizado com um shot de espresso em uma xícara. Apenas uma camada finíssima de espuma. É uma tela perfeita para a Latte Art, outra paixão australiana. O Flat White foi criado na década de 80 aqui na Austrália (apesar dos neozelandeses ainda reivindicarem sua criação) e é um dos símbolos da revolução que está acontecendo aqui na terra dos cangurus, onde o chá está perdendo espaço para o café. Isso é visivelmente percebido pela quantidade de cafeterias modernas que pipocam por toda Sydney.

Já o Long Black é um shot duplo de espresso em uma xícara com um pouco de água quente. É mais forte que o americano e, se o processo não for invertido (primeiro a água e depois os shots), ele mantém a crema. É de uma beleza complexa e frágil: depois de 1 minuto, a crema praticamente desaparece.

Com uma das mais rígidas leis de controle agrícola do mundo, a Austrália, ao contrário do Brasil, tem a sorte de poder importar grãos crus para serem torrados nas cafeterias locais, muitas vezes no próprio salão. E cada vez mais essas cafeterias estão investindo em grãos de várias partes do mundo – A Toby’s Estate, uma das maiores e mais competentes redes de cafeterias gourmet da Austrália, importa e torra nada menos que grãos de café de 11 países diferentes. Porém, nem tudo são flores. Como morador de Sydney, a impressão que tenho aqui é que, ao passo que o menu de cafés aumenta, o de comidinhas diminui. Não raro, você pode escolher café com diferentes métodos de extração, como espresso, filtrado, na french press ou a vácuo, seja de Honduras, Etiópia, Colômbia, Ruanda ou Iémen, mas para acompanhar as opções são simplesmente um cupcake de laranja ou um biscoito de chocolate sem glúten.

A obsessão pelo café é renovada anualmente no The Rocks, o bairro mais antigo de Sydney. O "The Rocks Aroma Coffee Festival" é a concretização do interesse dos australianos pelo tema. Todos os anos, 90 mil pessoas degustam cafés de várias partes do mundo, de vários processos de torra a preços simbólicos. E, a cada ano, o festival cresce em tamanho de público e expositores. Não é para menos. Hoje os australianos consomem o dobro de café de 30 anos atrás. As máquinas de espresso caseiras estão se popularizando muito rapidamente, tanto pela beleza do design quanto pela quantidade de tipos de grãos disponíveis nos supermercados, e são hoje itens tão necessário quanto a torradeira e o micro-ondas.

Tenho vários amigos que começaram comprando uma máquina de espresso para terem aquele café profissional inigualável disponível a qualquer momento, mas perceberam que em casa o café não ficava igual ao da cafeteria. Então, correram atrás de informações e cursos de barista para se aprimorarem e conseguirem tirar o tão desejado café. Assim, passaram a ficar mais exigentes, e num segundo momento as cafeterias medianas não mais os atendiam à altura. Agora estamos vivendo aqui o aprimoramento desses pequenos estabelecimentos, que começaram a se atualizar para reconquistar os clientes perdidos.

E com esse ciclo, devagarzinho, a nação do chá está se tornando definitivamente uma nação de amantes do café!

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